31 de dezembro de 2012

O feminismo negro de Paulina Chiziane (Adelto Gonçalves)



- Para João Craveirinha, pela amizade e pelos subsídios fornecidos para este ensaio

Se a literatura escrita por mulheres já é um mundo diferente, abordado por ângulos que romancistas e contistas homens dificilmente vêem, imaginemos, então, o que pode ser o mundo visto por uma mulher africana, moçambicana, ainda mais se é governado por costumes e tradições que nos soam estranhos. Esse estranho e mágico mundo é o que oferece em seus livros Paulina Chiziane (1955), a primeira romancista negra de Moçambique.

Diz-se aqui primeira romancista negra porque não seria correcto chamá-la de primeira escritora moçambicana, pois Lília Momplê (1935), nascida na Ilha de Moçambique, autora de livros de contos e de uma biografia, professora, funcionária da UNESCO e ex-secretária-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, apareceu antes dela, já à época pós-Independência. E é provável que haja outras moçambicanas autoras de livros. Acontece que Lília Momplê, descendente de macua, é mestiça, carregando sangue europeu nas veias. E, se o critério for o de uma suposta africanidade, Paulina seria a primeira negra escritora de Moçambique, mas definitivamente não é a primeira moçambicana escritora.

É claro que estes "divisionismos cromáticos" não levam a nada, até porque ninguém seria mais ou menos moçambicano por causa da cor da pele. Seja como for, o que se sabe é que na sociedade moçambicana destes dias há duas versões para esta questão: uma para consumo interno (que nem todos são tão escuros) e outra para consumo externo (mais abrangente).

Isto sem contar certos "paternalismos colonialistas" que levam escritores de Moçambique e Angola, com raízes mais europeias do que afrobanto, a encontrar melhor recepção na indústria editorial, além de maior divulgação pelos meios de comunicação da antiga metrópole e do Brasil. Ou será que é só por falta de informação ou coincidência que na universidade brasileira, durante encontros sobre literatura africana de expressão portuguesa, só se fala em Mia Couto (1955), José Eduardo Agualusa (1960) e Pepetela (1941)?

O feriado nacional da matança dos colonos brancos em Angola (Paulo Gaião)


Militares portugueses do Esquadrão dos Dragões participaram num massacre em Angola que envolveu violência extrema e decapitação dos corpos, revela o livro "O império colonial em questão" de António Araújo (edições 70), que ontem o jornal Público divulgou.

Foi uma matança hedionda. Aconteceu a 27 de Abril de 1961 e foi uma acção de vingança pelo massacre de 15 de Março de centenas de colonos brancos pela UPA no norte de Angola.

Este massacre dos colonos é, naturalmente, tão hediondo como o anterior. Homens, mulheres, crianças foram mortos, esventrados, decapitados, queimados.

Está por fazer a catarse dos crimes praticados durante a guerra colonial. Estes são conhecidos mas não foram assimilados pela população portuguesa, não entraram na consciência colectiva.

Esta realidade tem muito a ver com a forma como é ainda vista a luta de libertação e o colonialismo, dentro dos códigos do politicamente correcto e da ideologia dominante da esquerda.

Na luta de libertação, tudo foram feitos heróicos.

No colonialismo e na guerra colonial, tudo foi opressão e chacina.

A catarse da descolonização também está por fazer, sobretudo em relação a Angola.

Como fomos incapazes de defender os nossos interesses minímos e a que papéis nos prestámos durante o período de transição, até à independência de Angola a 11 de Novembro.

Há um decreto pouco conhecido que traduz bem o que é o nosso nó na garganta no processo de independência de Angola, em relação ao qual nunca fizemos a expiação.

A lei é assinada pelo Alto Comissário de Angola Silva Cardoso em 3 de Fevereiro de 1975, no quadro do Governo de Transição do território ainda português.

Decreta que o dia da matança das centenas de colonos brancos a 15 de Março de 1961 passa a ser feriado nacional:

"Considerando que é dever do Governo de Transição de Angola exaltar os feitos primordiais levados a cabo durante a luta de libertação nacional pelos três movimentos de libertação, a FNLA, o MPLA e a UNITA; tendo em consideração o significado histórico na luta de libertaçãonacional de Angola, as datas: 4 de Fevereiro de 1961, ataque às prisões de Luanda, dirigido pelo MPLA; 15 de Março de 1961, ataque generalizado no Norte de Angola dirigido pela UPA(FNLA); 25 de Dezembro de 1966, ataque a Teixeira de Sousa, dirigido pela UNITA. Usandoda faculdade conferida pelos Capítulos II e III do Acordo de Alvor, o Governo de Transição decreta e eu promulgo, o seguinte: Artigo único - Os dias 4 de Fevereiro, 15 de Março e 25 de Dezembro são considerados feriados, em todo o território nacional, tendo os trabalhadores direito ao seu salário. Aprovado em Conselho de Ministros- Johnny Eduardo, Lopo do Nascimento e José N'Dele. O Alto Comissário, General Silva Cardoso"

Paulo Gaião

Expresso, 17 de dezembro de 2012

Os imbecis que destruíram Portugal (Tiago Mesquita)


A dívida do nosso país pode ter muitas causas. Endógenas e exógenas, micro e macroeconómicas, conjunturais ou estruturais. Há todavia um traço comum que, a meu ver, é a principal causa do estado a que chegámos, independentemente das dificuldades que todos os países enfrentam, da crise internacional e de tudo o resto que gostam de nos vender.

A causa de que falo é simples e nada tem de rebuscada: o nosso país tem sido governado por um grupo de pacóvios com tiques de parolo. Os novo-riquismo da política portuguesa é sem duvida o maior cancro da democracia partidária.

O dinheiro público, quando gasto de forma racional, não é contabilizável. A boa utilização destes recursos traduz-se em melhorias que, direta ou indiretamente, permitem à sociedade manter níveis de desenvolvimento elevado. E só com desenvolvimento o crescimento pode ser sustentável. E o pior é que isto nunca aconteceu neste país.

De que serve construir dezenas e dezenas de autoestradas se não temos dinheiro para nelas circular, nem tão pouco para as pagar ou sustentar? O maior centro comercial da europa? A maior ponte da europa? E ter alguma coisa à nossa medida, não pode ser? É coisa de pobre? De que serve gastarmos milhões em formação se não temos empregos? E aeroportos sem aviões? E dezenas de estádios de futebol às moscas? E escolas sem alunos? Submarinos ou cortes na saúde? Tanques ou reformas? E parcerias feitas para o Estado ser prejudicado? Privatizações em cima do joelho? E os dinheiro que jorrou da UE durante décadas, em que foi investido? Snack bares atrás do sol-posto? Jipes para passear nos montes alentejanos? Não querem gastar a próxima tranche da Troika em plasticina e paus de giz? Quem gastou o que não devia? Quem gastou o que não tinha? Quem gasta o que não tem? Que futuro pensavam estas alminhas iluminadas que iriamos ter? Imbecis.

A forma abusiva, parola, irresponsável, impune, pacóvia, descontrolada, despesista, acéfala e em muitos casos socialmente 'criminosa' como sucessivas gerações de governantes têm vindo a desbaratar o património de todos, os bens e o dinheiro que deveria ser alvo de uma gestão cuidada e rigorosa, é a principal causa do estado de falência em que estamos. O novo-riquismo, a falta de visão, a falta de formação, qualidade e competência dos políticos portugueses é a principal causa desta crise. A génese desta crise é política. Mas infelizmente a irresponsabilidade destas pessoas é directamente proporcional às responsabilidades exigidas pelos mesmos aos portugueses, com as quais são permanentemente confrontados, sem terem culpa alguma. Comemos e calamos.

Gastassem menos, parolos.

Tiago Mesquita
Expresso, 29 de Novembro de 2012

Diferença entre assessor e coveiro

DIFERENÇA ENTRE ASSESSOR e COVEIRO

AONDE ISTO CHEGOU...!!!

DIFERENÇA ENTRE ASSESSOR e COVEIRO

Assessor Vs. coveiro

EXEMPLO 1

Ora atentem lá nesta coisa vinda no Diário da República nº 255 de 6 de Novembro:

No aviso nº ---- (2ª Série), declara-se aberto concurso no I.P.J.

Para um cargo de "ASSESSOR", cujo vencimento anda à roda de 3500 euros).

Na alínea 7:... "Método de selecção a utilizar é o concurso de prova pública que consiste na

"... Apreciação e discussão do currículo profissional do candidato."

EXEMPLO 2

Já no aviso simples da pág. 26922, a Câmara Municipal de Lisboa lança concurso externo de ingresso para COVEIRO, cujo vencimento anda à roda de 450 EUR mensais.

Método de selecção:

Prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos.

A prova consiste no seguinte:

1. - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional;

2. - Regime de Férias, Faltas e Licenças;

3. - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos.

4. - Depois vem a prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários.

5. -Por fim, o homem tem que perceber de transporte e remoção de restos mortais.

6. - Os cemitérios fornecem documentação para estudo.

Para rematar, se o candidato tiver:

- A escolaridade obrigatória somará + 16 valores;

- O 11º ano de escolaridade somará + 18 valores;

- O 12º ano de escolaridade somará + 20 valores.

7. - No final haverá um exame médico para aferimento das capacidades físicas e psíquicas do candidato.

ISTO TUDO PARA UM VENCIMENTO DE 450? MENSAIS!

Enquanto o outro, com 3.500? só precisa de uma cunha...!!!

Vale a pena dizer mais alguma coisa...?!

Moralidade... precisa-se com urgência!

Por estas e por outras, é que em Portugal existem Coveiros Cultos e Assessores de m****.

Recebido por e-mail

16 de dezembro de 2012

Maputo: Jardim Tunduru em obras a partir de Janeiro de 2013



O Jardim Tunduru, localizado no coração da cidade de Maputo, poderá mudar de rosto a partir de Janeiro do próximo ano como resultado de obras de reabilitação a arrancar por aquelas alturas.

Maputo, Sábado, 15 de Dezembro de 2012:: Notícias

Para o efeito, o Conselho Municipal lançou já o concurso para a selecção do empreiteiro a ser encarregue pelas obras e a ideia é que os trabalhos arranquem durante o primeiro mês do ano.


A necessidade de se avançar rapidamente na restauração do Tunduru, o maior jardim botânico do país e actualmente degradado, é visível no tempo estipulado para a submissão de propostas por parte dos empreiteiros, menos de 25 dias, ou seja desde 12 de Novembro a 4 de Dezembro.

Morte de Samora Machel: Procuradoria confirma presença na investigação



A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou ontem, em Maputo, que as autoridades nacionais participam nas novas investigações sobre a morte do primeiro Presidente de Moçambique independente, Samora Machel, bem como a existência de novos dados sobre o despenhamento do avião (Tupolev) que vitimou, a 19 de Outubro de 1986, o estadista e outros 33 acompanhantes nas colinas de Mbuzini, África do Sul.

Maputo, Sábado, 15 de Dezembro de 2012:: Notícias

Em entrevista à Televisão de Moçambique (TVM), Ângelo Matusse, Procurador-Geral Adjunto, disse, porém, não poder entrar em detalhes por se estar a meio de uma investigação confiada a uma comissão mista composta por técnicos moçambicanos e sul-africanos.

15 de dezembro de 2012

Turismo na Região de João Belo (Ano 1965)



Para quem viaja por estrada, a cerca de 188 quilómetros de Lourenço Marques fica o primeiro centro de veraneio, S. Martinho do Bilene que hoje, graças a ousadas iniciativas, já constitui uma estância de turismo com projecção internacional. O seu grande atractivo é uma longa praia formada pela Lagoa Uembje, de água salgada, com cerca de 25 quilómetros, que está ligada ao Índico por um canal.

A praia é baixa, sem o mínimo perigo para as crianças. O peixe que abunda nas suas águas leva os pescadores desportivos a atraentes jornadas de barco pela calma lagoa. Nos últimos anos foram construídas no Bilene muitas moradias para férias de residentes na capital de Moçambique. Os CTT, considerando as características da praia, ergueram uma “colónia de férias” que serve os filhos dos seus funcionários de todos os pontos da Província, em turnos que funcionam a partir do encerramento das aulas. Os Caminhos de Ferro de Moçambique, através do Clube Ferroviário, também dispõem de um conjunto de moradias, hangar de barcos de recreio e um restaurante.

Distrito de Gaza (Ano 1965)


Gaza foi elevada à categoria de Distrito Militar após a Campanha de Pacificação em 1895, que pôs cobro às incursões das hordas que, vindas do exterior, escravizavam e aterorizavam as populações locais.

Em 1907, a região foi incorporada no Distrito de Lourenço Marques. Em 1918, foi definida como Distrito Civil, voltando a ser integrada no Distrito de Lourenço Marques em 1928. Pelo Decreto 35 733 de 4 de Julho de 1946 voltou a ser criado o Distrito de Gaza, englobando as seguintes áreas: Alto Limpopo, Bilene, Chibuto, Gaza, Guijá, Magude, Muchopes e Sabié. Em 1954, era estabelecido pelo Decreto nº 39 858, de 20 de Outubro, o Governo do Distrito com sede na Cidade de João Belo. Assim, o Distrito de Gaza tem hoje uma área de 82 937 quilómetros quadrados e a seguinte divisão administrativa: Baixo Limpopo, Bilene, Chibuto, Gaza e Muchopes; Circunscrições: Guijá, Limpopo e Magude.

As Mãos dos Pretos (Luís Bernardo Honwana)



Já nem sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo.

Maputo, Quarta-Feira, 5 de Setembro de 2012:: Notícias

Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.