30 de setembro de 2008

Beira (2005)

Maputo: Bairro da Malhangalene (2005)

Malangatana Valente Ngwenya (Biografia)

MALANGATANA VALENTE NGWENYA Nasceu em Matalana, distrito de Marracuene, província de Maputo, Moçambique, a 6 de Junho de 1936, filho de Manguiza Ngwenya e de Hloyaze Xerinda. Frequentou a Escola da Missão Suiça na Matalana, onde aprendeu a ler e a escrever em ronga. Encerrada a escola protestante por efeito do Acordo Missionário de 1940, transita para a Escola da Missão Católica em Bulázi, onde conclui a terceira classe rudimentar, em 1948, partindo seguidamente para Lourenço Marques, onde arranja emprego como criado de crianças. Em 1953, conseguiu emprego de "apanha-bolas" e, mais tarde, de criado de mesa no Clube de ténis de Lourenço Marques. A 8 de Dezembro de 1956, casa com Gelita Mhangwana. A partir de 1959, descobertas as suas capacidades artísticas, Malangatana envereda por uma carreira de pintor profissional, com o apoio de Augusto Cabral e do arquitecto português Miranda Guedes (Pancho), que lhe cedeu a garagem para atelier e lhe adquiria dois quadros por mês, para que se pudesse manter. A 10 de Abril de 1961, Malangatana organiza a sua 1ª Exposição Individual em Lourenço Marques, no Banco Nacional Ultramarino. Após o início da luta armada em Moçambique, Malangatana junta-se à rede clandestina da FRELIMO, criada pelos guerrilheiros que integravam a Quarta Região (Inhambane, Gaza e Província e Cidade de Maputo), desenvolvendo actividades diversas que levaram a PIDE a afirmar mais tarde que "MALANGATANA serve de cartaz de propaganda adoptado por matizes políticos antagónicos à linha política da administração ultramarina portuguesa". Em 22 de Dezembro de 1964, foge para a Suazilândia, regressando a Lourenço Marques no dia 1 de Janeiro do ano seguinte, tendo a PIDE procedido à sua captura três dias depois. Julgado em Tribunal Militar, é absolvido a 23 de Março de 1966, sendo de novo preso a 17 de Junho desse ano, sendo restituído à liberdade a 11 de Novembro. Segundo a PIDE, Malangatana "cultivou a aura popular e beneficiou de simpatia e protecção dispensada por Sua Excelência o Ministro das Corporações, Saúde e Assistência, ao tempo Governador-Geral da Província de Moçambique [Baltazar Rebelo de Sousa]." Frequentador assíduo do "Núcleo de Arte", aí expõe diversas obras, de cariz eminentemente social. Data aliás de 1968 um dos seus quadros politicamente mais empenhados e que esteve exposto no "Núcleo de Arte", a que pôs o título de "25 de Setembro", data de início da luta armada em Moçambique – o que levou a PIDE/DGS a interrogá-lo em 1971 sobre o significado dessa obra, concluindo a polícia política que o mesmo pretendia "reproduzir (...) a fúria da alma negra em revolta no momento em que eclodiram no norte da Província os ataques sangrentos da FRELIMO". Malangatana organiza também frequentes actividades culturais na sua aldeia natal de Matalana, sendo aliás acusado de aí organizar "danças nativas e batuques", em que se exibe "por forma não isenta de reparos de alguns dos presentes" e acolher com frequência "visitantes americanos e altos funcionários do Governo daquele país". Em 1971, o Pintor recebe uma bolsa "para a metrópole" da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido mandado reter por despacho do Ministro do Ultramar, posteriormente revogado em face da informação de que "marcada para hoje, anunciada mesmos orgãos [imprensa local e rádio], interdição saída não deixará ser conhecida a todos os níveis sociais e ele mesmo se encarregará de a espalhar, apresentando-se como vítima arbitrariedade governo. Por outro lado, especular-se-á com os factos de se apregoar propósitos de promoção homem negro e, quando surge uma oportunidade, governo corta-la." Conseguindo seguir para Lisboa, trabalhou em gravura na Gravura – Sociedade Cooperativa dos Gravadores Portugueses e em cerâmica na Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego. Regressado a Moçambique, organiza, em 1972, uma exposição individual na COOP - Lourenço-Marques, inaugurada pelo Governador-Geral Eng.º Pimentel dos Santos. No mesmo ano, torna-se conhecido e apreciado em Lisboa, designadamente através das exposições organizadas por Rui Mário Gonçalves na Livraria Bucholz e na Sociedade Nacional de Belas Artes. A convite de amigos, desloca-se no ano seguinte à Suiça, o que lhe permite contactos com galerias e artistas, abrindo-lhe novos horizontes. Com a independência de Moçambique, Malangatana envolve-se directamente na actividade política, participando designadamente em acções de mobilização e alfabetização e, a partir de 1978, na organização das aldeias comunais na Província de Nampula. Desenvolve intensa actividade no âmbito do Grupo Dinamizador do Bairro do Aeroporto, onde reside, e participa em múltiplas actividades cívicas e sociais. Eleito deputado em 1990 nas listas da Frelimo, será escolhido em 1998 para a Assembleia Municipal de Maputo e reeleito em 2003. A partir de 1982, Malangatana desenvolve novas técnicas e assume novos modos de expressão artística. Em 1984, integra os "Artistas do Mundo contra o Apartheid", expondo em diversas cidades da Europa. Em 1986, organiza em Maputo uma retrospectiva comemorativa dos seus 25 anos de pintura, inaugurada pelo Presidente Samora Machel, exposição retomada em Viena e em Lisboa. Em 1989, conclui a construção da escultura em ferro e cimento "Casa Sagrada da Família Mabyaya" nos terrenos da fábrica Mabor, em Maputo. Em 1994, o Autor retoma a execução da escultura, alterando a sua dimensão de 15 para 25 metros de altura. Foi um dos criadores do Movimento para a Paz, pertence à Direcção da Liga de Escuteiros de Moçambique (LEMO) e é membro da Direcção da Associação dos Amigos da Criança. Intervém na organização da Escolinha dominical "Vamos Brincar", promovida pela UNICEF e participa na Suécia, em 1987, em actividades similares com crianças suecas e refugiados de diversos países. Tendo sido um dos criadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique, manteve e dinamizou o Núcleo de Arte (Associação que agrupa artistas plásticos) e criou os núcleos de artesãos nas zonas verdes de Maputo. Terminada a guerra civil, em 1992, retoma um projecto cultural que impulsionara na sua aldeia de Matalana, surgindo assim a Associação do Centro Cultural de Matalana, de grande valor social e cívico, de que é o actual presidente da Direcção. A sua obra é reconhecida em todo o mundo, participando em múltiplas exposições colectivas e individuais e integrando diversos júris em Moçambique e no estrangeiro. Homem multifacetado, pintor, ceramista, cantor, actor, dançarino, é uma presença assídua em numerosos festivais, afirmando sempre a sua origem africana e moçambicana. Publica também obras de poemas, em 1996 e 2004. Em 6 de Junho de 2006, é homenageado em Matalana por ocasião do seu 70.º aniversário, sendo condecorado pelo Presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza, com a Ordem Eduardo Mondlane do 1º Grau, o mais alto galardão do país, em reconhecimento do trabalho desenvolvido nas artes plásticas. Na mesma data, com a presença de centenas de convidados moçambicanos e estrangeiros, foi lançada a Fundação Malangatana Ngwenya, com sede em Matalana, sua terra natal, na província de Maputo.

29 de setembro de 2008

Samora Moisés Machel se estivesse vivo completaria hoje 75 anos de idade

PAZ É INSEPARÁVEL DA INDEPENDÊNCIA SAMORA MACHEL SE ESTIVESSE VIVO COMPLETARIA HOJE 75 ANOS DE IDADE A PAZ é inseparável da independência – visão de Samora Moisés Machel, primeiro Presidente de Moçambique, figura carismática que, se estivesse vivo, completaria hoje 75 anos de idade. Peça incontornável na história da luta armada de libertação nacional, Samora Machel mostrou esta sua visão à delegação colonial portuguesa, liderada pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, quando em Lusaka foi proposto à Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) um cessar-fogo e consequente realização de referendo para decidir se os moçambicanos queriam ou não a independência. Samora recusou a proposta e expandiu as operações militares, facto muito propalado pela Imprensa, levando Lisboa a mudar de atitude até assinar em 7 de Setembro de 1974 os Acordos de Lusaka. Samora Moisés Machel conseguiu organizar a guerrilha de forma não só a neutralizar a ofensiva militar portuguesa, comandada pelo General Kaulza de Arriaga, a quem foi dado um enorme exército de 70 mil homens e mais de 15 mil toneladas de bombas, mas também organizar as zonas libertadas que abrangiam cerca de 30 por cento do território nacional. Além disso, Samora dirigiu uma ofensiva diplomática em que grangeou apoios, não só dos tradicionais aliados, mas inclusivamente do Papa que era um tradicional aliado de Portugal. Samora Moisés Machel nasceu na aldeia de Madragoa, hoje Chilembene, aos 29 de Setembro de 1933. Passam hoje 75 anos. Filho de um agricultor relativamente abastado, Samora entrou na escola primária com 9 anos, quando o Governo colonial português entregou a "educação indígena" à Igreja Católica. Quando terminou a escola primária, o jovem de cerca de 18 anos quis continuar a estudar, mas os padres só lhe permitiam estudar teologia. Samora decidiu tentar a vida em Lourenço Marques, hoje cidade de Maputo. Teve a sorte de se empregar trabalho no principal hospital da cidade e, em 1952, começou o curso de Enfermagem. Em 1956, foi colocado como enfermeiro na Ilha da Inhaca, na cidade de Maputo, onde casou com Sorita Tchaicomo, de quem teve quatro filhos, nomeadamente Joscelina, Edelson, Olívia e Ntewane. Samora Machel foi educado como nacionalista e, como estudante, foi sempre um "rebelde". Tomou conhecimento dos importantes acontecimentos que se davam no mundo: a formação da República Popular da China, com Mao Tsé-Tung, em 1949; a independência do Gana, com Kwame Nkrumah, em 1957, seguida por vários países africanos. Mas foi o seu encontro com Eduardo Mondlane de visita a Moçambique, em 1961, que nessa altura trabalhava no Departamento de Curadoria da ONU, como investigador dos acontecimentos que levavam à independência dos países africanos, que juntamente com a perseguição política de que estava a ser alvo, levou à decisão de Samora abandonar o país, em 1963 e juntar-se à FRELIMO, na Tanzania. Para lá chegar teve a sorte de, no Botswana, encontrar Joe Slovo com um grupo de membros do ANC que ofereceu boleia a Samora num avião que tinham fretado. Dado que nessa altura já a FRELIMO tinha chegado à conclusão do que não seria possível conseguir a independência de Moçambique sem uma guerra de libertação, o jovem enfermeiro Samora Machel foi integrado num grupo de recrutas e recebeu treino militar na Argélia. No seu regresso à Tanzania, ele tornou-se imediatamente comandante. Em Novembro de 1966, na sequência do assassinato do então Chefe do Departamento de Defesa e Segurança da Frelimo, Filipe Samuel Magaia, Samora foi nomeado chefe do novo Departamento de Defesa, com as mesmas funções do anterior, enquanto Joaquim Chissano foi nomeado chefe do Departamento de Segurança, tratando dos problemas de espionagem que estavam a minar o movimento de libertação. Em 1967, Samora Machel criou o Destacamento Feminino para envolver as mulheres moçambicanas na luta de libertação e, em 1969, casou-se oficialmente com Josina Muthemba, de quem teve um filho, Samora Machel Jr. Em 1968, foi reaberta a "Frente de Tete", que foi a forma de Samora responder a dissidências que se verificaram dentro do movimento, reforçando a moral dos guerrilheiros. Em 3 de Fevereiro de 1969, Eduardo Mondlane, então Presidente da FRELIMO, foi assassinado. Uria Simango, o Vice-Presidente, assumiu a presidência, mas o Comité Central, reunido em Abril, decidiu rodeá-lo de duas figuras – Samora Machel e Marcelino dos Santos, formando um triunvirato. Simango, em Novembro desse ano, publicou um documento dando apoio aos antigos dissidentes (que não tinham sido ainda afastados do movimento) e acusando Samora e vários outros dirigentes de conspirarem para o matar. Em Maio de 1970, noutra sessão do Comité Central, Simango foi expulso do movimento e Samora Machel foi eleito Presidente da FRELIMO, com Marcelino dos Santos como Vice-Presidente. Nos anos seguintes, até 1974, Samora conseguiu organizar a guerrilha de forma não só a neutralizar a ofensiva militar portuguesa, comandada pelo General Kaúlza de Arriaga, a quem foi dado um enorme exército de 70 000 homens e mais de 15 000 toneladas de bombas, mas também organizar as Zonas Libertadas, que abrangiam cerca de 30% do território. Para além disso, Samora dirigiu uma ofensiva diplomática, em que granjeou apoios, não só dos tradicionais aliados socialistas, mas inclusivamente do Papa, que era um tradicional aliado de Portugal. Em Julho, cercou um destacamento português que se rendeu; este facto, muito propagandeado pela imprensa, levou Lisboa a mudar de atitude e, em 7 de Setembro de 1974, foram assinados os Acordos de Lusaka entre o Governo português (cuja delegação era então dirigida por Melo Antunes, Ministro sem Pasta), em que se decidiu que no mesmo mês se formaria um Governo de Transição, integrando elementos nomeados por Portugal e pela FRELIMO, e que a independência teria lugar a 25 de Junho de 1975. A FRELIMO decidiu que o Primeiro-Ministro do Governo de Transição não devia ser Samora, mas Joaquim Chissano, ainda chefe do Departamento de Segurança. Entretanto, Samora fez várias viagens aos países socialistas e a países vizinhos de Moçambique, para agradecer o seu apoio durante a luta armada e solicitar apoio para a construção do Moçambique independente. Durante uma sessão do Comité Central, realizada na praia do Tofo (Inhambane) e dirigida por Samora, foi aprovada a Constituição da República Popular de Moçambique e decidido que Samora Machel seria o Presidente da República. No plano interno, Samora sempre assumiu uma política populista, tentando utilizar nos meios urbanos os métodos usados na guerrilha e angariar o apoio do povo para o desenvolvimento do país em bases socialistas. Menos de um mês depois da independência, Samora anunciou a nacionalização da saúde, educação e justiça; passado um ano, a nacionalização das casas de rendimento, criando a APIE (Administração do Parque Imobiliário do Estado), que arrendava as casas a valores monetários que tinham em conta de acordo com o rendimento do agregado familiar; lançou grandes programas de socialização do campo, com o apoio dos países socialistas, envolvendo-se pessoalmente numa campanha de colheita do arroz. Conseguiu ainda o apoio popular, principalmente dos jovens, para operações de grande vulto, tais como o recenseamento da população, em 1980, e a troca da moeda colonial pela nova moeda, o Metical, no mesmo ano. Outras políticas populares foram as “ofensivas” a favor do aumento da produtividade e contra a corrupção, geralmente anunciadas em grandes comícios, com grande participação da população. No entanto, poucas destas campanhas tiveram êxito e, em parte, levaram ao abandono do país de grande número de residentes de origem estrangeira, o que provocou a paralisação temporária de muitas empresas e, mais tarde, por falta de capacidade de gestão, ao colapso de muitos sectores, tais como a indústria têxtil, metalúrgica e química. Na frente externa, Samora sempre seguiu uma política de angariar amizades e apoio para Moçambique, não só entre os "amigos" tradicionais, e unindo os países vizinhos numa frente de integração regional, a SADCC, mas até entre os seus "inimigos", tendo sido inclusivamente recebido por Ronald Reagan e assinado um acordo de boa-vizinhança com Pieter Botha, o Presidente da África do Sul dos últimos anos do "apartheid" (o Acordo de Nkomati). Samora empenhou-se depois na guerra que, iniciada logo a seguir à independência pelos vizinhos regimes racistas (a África do Sul e a Rodésia de Ian Smith), provocou cerca de um milhão de mortos e cinco milhões de deslocados e destruiu grande parte das infra-estruturas do país. Não conseguiu, no entanto, ver realizados os seus propósitos, uma vez que, em 19 de Outubro de 1986, quando se encontrava de regresso duma reunião internacional em Lusaka, o Tupolev 134 em que seguia, com muitos dos seus colaboradores, despenhou em Mbuzini, em território sul-africano, mas perto da fronteira com Moçambique. Referência: Samora – Uma Biografia, de Iain Christie

28 de setembro de 2008

Aiué (Cochat Osório)

AIUÉ Dominga num qué chorár. Os minino já tá no vapor. E bana co mão e bana co lenço: mmammann, mmamman, mmamman... Dominga num qué chorár. E si vai chorár num vai ver mais esse vapor, nim os minino que tá nesse vapor, nim... Num pode, não; Dominga num pode. Dominga num qué chorár. Sô Gome tá inda na escada. E conta as imbamba. E ráia neses negro que tá a le estragar a maios mior, esse mala que Dominga rumou cos coisa desses minino. Mas os minino já tá memo no vapor. Dominga tá ver eles. E bana co mão e bana co lenço. E Dominga les ouve qui fara: mmamman, mmamman, mmamman. Dominga les ouve nesses confusão toda. Cos home que tá raiá nesses negro que ruma os saco. E esse máquina que tá sempre a pitár. Esse branco que manda-le sair todo o tempo e passa co máquina grande e despois já num vai, só quer é vortár. Dominga les ouve no coração: mmamman, mmamman, mmamman... Ma Dominga tem o coração pêsado no disgosto. E os óio tá co a vontade, ma Dominga num deixa-les chorár. E se Dominga les deixa, atão já sabe cos óio num vê mais esse vapor. E Dominga num qué, Dominga num qué chorár. Dominga percebeu. Nesse dia qui sô Gome vendeu o roça. Num farou nada. Despois, sô Gome qui diz: - Dominga, me deixa levá os minino no Puto. Qui, vai dar é mulato safado nesses muceque. Eu põe no colégio dos branco. Vai ter educação... Dominga num qué: é os minino dera, os minino que mamou nesses peito. Dominga num qué. Num pode. Num qué le deixár! - Atão?!... Dominha num qué chorár. E os minino já tá no vapor: mmamman, mmamman, mmamman... E bana co mão e bana co lenço. E Dominga num tá querêr. E despois num percebe. E esse branco le grita e fasta-le do máquina. E esse máquina vai; e despois já num qué só qué é vortar, caté parece ´s os óio de Dominga que tá só co vontade ma num pode mais chorár. E Dominga num tá repará nesses confusão todo. Sabe só que sô Gome tá a les pagar nesses negro o siriviço. E cos minino já tá no vapor e... Dominga num qué chorár. Esses minino é os minino dera, mamou nesses peito. Atão?! E despois... Quando Gome le disse, Dominga num qué deixár. Dominga... Como é?... Atão vucê num viste qui num pode?! Rispondeu-le nessa hora: - Zeca, diga nesses minino que fara no sua mamã, que escreva no sua mamã, que... Os minino num vais vortár. Dominga é que sabe. Os minino num vais votrár. Já tá é nesse vapor. E bana co mão e bana co lenço. E Dominga les ouve que fara no sua mamã. Mas é só Dominga que les percebe e panha esses voz nos confusão. E Dominga é que sabe no coração qué o voz dos minino dera. Le chamou de Zeca treis veiz. Primeiro, inda é minima. Foi no loja. Sô Gome trabaia no loja. E Dominga le diz: «me dá o fuba, ân, e o azeite de palma, ân e...» Sô Gome tá só é a le ver. «Atão?!, me despacha! Sô Gome... ná... Sô Gome le põe as mão nesses peito. Dominga le diz: Sô Gome!..., num mexe!; que vucê tá fazer?, ân? Juízo! Vucê qué me desgraçár?» Despois... eh!... Despois os coisa aconteceu. Atão... Que tem? Atão Dominga le diz: - Zeca, vucê me desgraçou! Ma Gome le queria nessa negra Dominga. E deu-lhe os pano. E os cordão de missanga. E risorveu esses coisa cos famíria, caté pagou alembamento. Dominga migou co branco. E foi no casa do branco. Dominga num é mais negra de sanzala. Num é já como esses negro servage, esses negro de sanzala: migou co branco. E os negro, nessa hora, já tá a le chingár. Caté le chama de desgraçada. Bandonou o sua raça. O Deus vai le castigár. - Atão?!... - Mêmo. E nessa hora eles percebe ou num percebe, tá ver, e diz que Deus é branco. - Atão, si Deus é branco... os negros num é fio de Deus?! Atão?!... E vucê tá a me ráiár porque eu faz os meus fios... fio de Deus?! - Tu vai fazer é mulato. - Mulato?! - E tu num sabe que mulato num tem sangue? Porque tu num diz no sô Gome que vê nos livro? Tá lá. Mulato num tem sangue. Num tá. Dominga sabe. Aqueres minino tem sangue. É os minino dera. E tá no vapor. E vai no Puto. E num vai vortár. Dominga se lembra. Les disse nos véio: «desgraçado é vucês, ân, vucês é qué desgraçado». Ma Dominga tá ficar co medo. É medo dos feitiço. E vai no quimbanda. Dominga migou co branco. Tá na casa do sô Gome. E Dominga toma conta. E já vai ter os minino. E despois vai ficar véia. E fica véia, fica... Já tá mêmo véia. Sô Gome le manda dormir no esteira. E sô Gome, tá ver, ele faz o que quére. Dominga percebe. Ma Dominga tem esses minino qué os minino dera. Dominga migou co branco. Num é mais negra de sanzala, não. Ela sabe co sô Gome... Que tem?!... Tem muito, eh! Ma Dominga é que tá no casa e toma conta e tem os minino pa le dar fericidade. Os outros negro vem só quando... quando cabou o fuba, quando qué le pedir o... o... coisa, quando qué le vender o ovo... Dominga percebe... Mas ela tem os minino, esses minino bom qué os minino dera. E Dominga les juda. E num zanga. Assim é que é. Atão sô Gome deixou o loja. Faz o roça nesses lavra qué dos famíria dera. E les diz que... bem! Que tá tudo bandonado. E co café é o café do passarinho. E aqueles já tá é perder os direito. Atão, sô Gome disinvorveu. E... eh!... E o roça já tá é mais grande. E sô Gome já tá o home co dinheiro. E quére os lavra dos outros. E les compra. E só mêmo esses véio é que bana co cabeça e fara que... bem! Que num tá certo! E fara co Gananzambi vai le castigár. Ma Gome num le importa. E Dominga tem é os pano bonito, os panos mais mior. E os purseira. E o cordão. Chamou-le Zeca outra veiz, quando minino morreu. Sô Gome bateu! - Negra safada! Atão vucê leva o minino no quimbanda e eu mando no dòtor? Dominga num percebe. Dominga num pode. E tá chorá mêmo: - Zeca, os minino morreu! Sô Gome também tá chorár. E num le bate mais na mamã dos minino. Os minino morreu! Despois le chamou Zeca essa veiz. E le diz: - Zeca, diga nos minino que escreva na sua mamã... E os minino vai'mbora. Sô Gome é bom. Mêmo bom. E queria le dar esse casa no cidade, esse casa nova. E pôr os dinheiro no Banco e... Dominga num ceita: Dominga é negra, ela sabe, negra de pano. E Dominga... Dominga le diz: - Me dê o casa de pau a pique no Bairrà Pêrário. E co quitanda, ân?! E ranja o licença, ân?! E... Me deixe!... Eu vive nesse negócio. Não pricida os dinheiro, não precisa os casa no cidade. Eu é negra, ân?!, tu sabe. Ma diz nesses minino que escreve no sua mamã, que fara no sua mamã. Ouviu? Dominga, ela sabe, minino num vai vortár. Num vai mêmo. Nim escreve no sua mamã. Os minino... Tá ver, esses minino já tá no vapor. E bana co mão e bana co lenço. E... mmamman, mmamman, mmamman... Dominga num qué chorár. E se vai chorá, num vair ver mais esse vapor. E Dominga qué ver esse vapor. Num pode, ela sabe, esses minino num vai vortár. Dominga... Os minino vai ficar nesses corégio dos minino branco. Num vai dar mulato safado nesses muceque. E despois os outros minino vai le perguntár: - Quem é o sua mamã? - Mia mamã?, - minino tem cabelo de carapinha - Mia mamã? É fia do soba lá na mia terra. Vucê leu no história aquela rainha que sentou no escrava e despois que diz: num levo cadera? É mia avó. Minino pricisa ter mãe portante; minino pricisa é ter orgúio, ân?! E Dominga, ela sabe... Dominga... Esses minino num vais vortár. E si vais vortár, é iguar. Já vem é home co dinheiro. Sô Gome les dá esse quitári do roça e fica portante. E Dominga sabe: esses minino num vai querer bem nessa mamã que é negra de pano e tem o quitanda no Bairrò Pêrário. Os minino num vai vortár na sua mamã. Num vai vir mêmo. Num vai escrever mais. Primeiro manda retrato. E manda mucanda. E despois, nem nada. Dominga sabe: os minino num vair vortár. Ma Dominga deixa-les ir. Os óio é que tá querê chorár, ma Dominga num quére. Os minino tá no vapor. E si Dominga vai chorár os óio num vê mais esse vapor. E Dominga les vê, caté les ouve e panha esse voz dos fio dera nos confusão desses home que traz os saco e traz os imbamba e desse branco desgraçado que tá sempre a le fastar e passa co máquina e vorta co máquina... Caté quando esse desgraçado pára esse máquina e tapa-le os minino. Dominga tá ver... Antonica... Tão bonia!... Tonica que tá tão bonita com esses lacinho vermeio nos cabelo... E... E Bastião que vai é mijar esses carça qué de fazenda... Num tem a sua mamã pa le tomar conta... E Zèquita... Tão grande!... Botoou os botão todo do casaco caté em cima... Zèquita também... E Tonica que canta tão... Canta mêmo!... E Dominga tá pensá que Tonica vai cantár é nos rádio. E quando esses povo tá ouvir esses música que mexe co gente, esses cantiga qué bom pa dançár, esses... ân?!... Tonica é que tá cantár, Tonica, a fia da Dominga, desse corpo, e... Dominga num qué chorár, num pode mais chorár e si vai chorár, Dominga, ela sabe... Não, num pode chorár, quesse branco já fastou-le outra veiz e Dominga qué ver é esses vapor e... Bastião, tão lindo! Tem tanto esperto nos cabeça, o Bastião!... E si Bastião vai estudar muito? E si vai ser é dótor? E esses povo vai le chamar dótor Bastião... Dótor Bastião, qué fio dessa negra Dominga... Tu sabe, aquera que tem o quitanda li no... Dótor Bastião... Dótor... E Zeca!... Tem tanto jeito na bola o Zeca! Coitado do zeca... Tá ver quando ele tá no muceque. Tá ver ele a correr no trás desse bola. E si Zeca tem tanto jeito na bola? E si Zeca vai jogár bola? E quando esses home tá no pé dos terefonia, nos rádio, e tá mêmo a ouvir... e começa vançar... E fará mais depressa caté... E já tá gritár: Ze-ca!, Ze-ca!, ZE-CA! GOOOLOO!!! É Zeca! Mêmo o Zeca! Esse Zeca que saiu desse corpo! Dessa negra que taí nesses confusão do porto! Dessa Dominga que tem... Tu lembra essa negra véia co quitanda, ân?!... Dessa mamã que tá mêmo... Não, num tá. Num pode. Num qué Chorár. Qué ver é o vapor. E os minino E si vais chorár esses óio num pode mais les ver. Atão Dominga fica a les óiar. E o vapor pitou. E tá mexer. E fastou. E Dominga num tá ouvir os minino que diz mmamman, mmamman, mmamman. Vê só é esses minino que bana co mão, que bana co lenço. E Dominga atão num pode mais sigurár esses óio. E se senta. E joéia. E garra os cabeça de carapinha com esses mão que num tem mais os minino pa fazer os festa. E chora. Chora. E fara co disgosto: aiué!... aiué!... aiue!... E esses branco que tá passár num le percebe: - Essa negra tá piruca! Num tá piruca, não! Dominga num bebeu. Dominga sabe só que num vair ver mais os minino. E quesses minino num vais vortár. E si vais vortár num vai mais si lembrá desses mamã negra de pano. E vê nesses óio, que já tá todo a chorár, vê só os minino que bana co mão e bana co lenço e..., mmamman, mmamman, mmamman, mmamman, mma... Cochat Osório

27 de setembro de 2008

Um homem nunca chora (José Craveirinha)

UM HOMEM NUNCA CHORA Acreditava naquela história do homem que nunca chora. Eu julgava-me um homem. Na adolescência meus filmes de aventuras punham-me muito longe de ser cobarde na arrogante criancice do herói de ferro. E agora tremo. E agora choro. Como um homem treme. Como chora um homem! José Craveirinha

Ao meu belo pai ex-emigrante (José Craveirinha)

AO MEU BELO PAI EX-EMIGRANTE Pai: As maternas palavras de signos vivem e revivem no meu sangue e pacientes esperam ainda a época de colheita enquanto soltas já são as tuas sentimentais sementes de emigrante português espezinhadas no passo de marcha das patrulhas de sovacos suando as coronhas de pesadelo. E na minha rude e grata sinceridade não esqueço meu antigo português puro que me geraste no ventre de uma tombasana eu mais um novo moçambicano semiclaro para não ser igual a um branco qualquer e seminegro para jamais renegar um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue. E agora para além do antigo amigo Jimmy Durante a cantar e a rir-se sem nenhuma alegria na voz roufenha subconsciência dos porquês de Buster keaton sorumbático achando que não valia a pena fazer cara alegre e um Algarve de amendoeiras florindo na outra costa Ante os meus sócios Bucha e Estica no "écran" todo branco e para sempre um zinco tap-tap de cacimba no chão e minha Mãe agonizando na esteira em Michafutene enquanto tua voz serena profecia paternal: - "Zé: quando eu fechar os olhos não terás mais ninguém." Oh, Pai: Juro que em mim ficaram laivos do luso-arábico Algezur da tua infância mas amar por amor só amo e somente posso e devo amar esta minha bela e única nação do Mundo onde minha mãe nasceu e me gerou e contigo comungou a terra, meu Pai. E onde ibéricas heranças de fados e broas se africanizaram para a eternidade nas minhas veias e teu sangue se moçambicanizou nos torrões da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital colono tão pobre como desembarcaste em África meu belo Pai ex-português. Pai: O Zé de cabelos crespos e aloirados não sei como ou antes por tua culpa o "Trinta-Diabos" de joelhos esfolados nos mergulhos à Zamora nas balizas dos estádios descampados avançado-centro de "bicicleta" à Leónidas no capim mortífera pontaria de fisga na guerra aos gala-galas embasbacado com as proezas do Circo Pagel nódoas de cajú na camisa e nos calções de caqui campeão de corridas no "xituto" Harley-Davidson os fundilhos dos calções avermelhados nos montes do Desportivo nas gazetas à doca dos pescadores para salvar a rapariga Maureen OSullivan das mandíbulas afiadas dos jacarés do filme de Trazan Weissmuller os bolsos cheios de tingolé da praia as viagens clandestinas nas traseiras gã-galhã-galhã do carro eléctrico e as mangas verdes com sal sou eu, Pai, o "Cascabulho" para ti e Sontinho para minha Mãe todo maluco de medo das visões alucinantes de Lon Chaney com muitas caras. Pai: Ainda me lembro bem do teu olhar e mais humano o tenho agora na lucidez da saudade ou teus versos de improviso em loas à vida escuto e também lágrimas na demência dos silêncios em tuas pálpebras revejo nitidamente eu Buck Jones no vaivém dos teus joelhos dez anos de alma nos olhos cheios da tua figura na dimensão desmedida do meu amor por ti meu belo algarvio bem moçambicano! E choro-te chorando-me mais agora que te conheço a ti, meu pai vinte e sete anos e três meses depois dos carros na lenta procissão do nosso funeral mas só Tu no caixão de funcionário aposentado nos limites da vida e na íris do meu olhar o teu lívido rosto ah, e nas tuas olheiras o halo cinzento do Adeus e na minha cabeça de mulatinho os últimos afagos da tua mão trémula mas decidida sinto naquele dia de visitas na enfermaria do hospital central. E revejo os teus longos dedos no dirlim-dirlim da guitarra ou o arco da bondade deslizando no violino da tua aguda tristeza e nas abafadas noites dos nossos índicos verões tua voz grave recitando Guerra Junqueiro ou Antero e eu ainda Ricardino, Douglas Fairbanks e Tom Mix todos cavalgando e aos tiros menos Tarzan analfabeto e de tanga na casa de madeira e zinco da estrada do Zichacha onde eu nasci. Pai: Afinal tu e minha mãe não morreram ainda bem mas sim os símbolos Texas Jack vencedor dos índios e Tarzan agente disfarçado em África e a Shirley Temple de sofisma nas covinhas da face e eu também Ee que musámos. E alinhavadas palavras como se fossem versos bandos de se´´cuas ávidos sangrando grãos de sol no tropical silo de raivas eu deixo nesta canção para ti, meu Pai, minha homenagem de caniços agitados nas manhãs de bronzes chorando gotas de uma cacimba de solidão nas próprias almas esguias hastes espetadas nas margens das úmidas ancas sinuosas dos rios. E nestes versos te escrevo, meu Pai por enquanto escondidos teus póstumos projectos mais belos no silêncio e mais fortes na espera porque nascem e renascem no meu não cicatrizado ronga-ib´´rico mas afro-puro coração. E fica a tua prematura beleza realgarvia quase revelada nesta carta elegia para ti meu resgatado primeiro ex-português número UM Craveirinha moçambicano! José Craveirinha

Maputo: Costa do Sol (2005)

Wazimbo "Nawhulwana"

Mc Roger - Dança marrabenta

24 de setembro de 2008

Sementeira (José Craveirinha)

SEMENTEIRA Cresce a semente lentamente debaixo da terra escura. Cresce a semente enquanto a vida se curva no chicomo e o grande sol de África vem amadurecer tudo com o seu calor enorme de revelação. Cresce a semente que a povoação plantou curvada e a estrada passa ao lado macadamizada quente e comprida e a semente germina lentamente no matope imperceptível como um caju em maturação. E a vida curva as suas milhentas mãos geme e chora na sina de plantar nosso suor branco enquanto a estrada passa ao lado aberta e poeirenta até Gaza e mais além camionizada e comprida. Depois de tanga e capulana a vida espera espiando no céu os agoiros que vão rebentar sobre as campinas de África a povoação toda junta no eucalipto grande nos corações a mamba da ansiedade. Oh! Dia de colheita vai começar na terra ardente do algodão! José Craveirinha (1955)

Depoimento autobiográfico (José Craveirinha)


DEPOIMENTO AUTOBIOGRÁFICO, JANEIRO DE 1977 "Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José. Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres. Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique. A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra. Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso. Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação. Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta. Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis. Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país. muitas vezes altas horas da noite." José Craveirinha, Janeiro de 1977

Tanja Rinas (José Craveirinha)

TANJA RINAS I Serão palmas induvidosas todas as palmas que palmeiam os discursos dos chefes? Não são aleivosos certos panegíricos excessivos de vivas? Auscultemos os gritos vociferados nos comícios, E nas bichas são ou não são bizarros os sigilosos sussurros? Em suas epopeias de humildade deixam intactos os sonhadores. Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário. Não bastam nos gabinetes os incompetentes? Ainda mais alcatifas e ares condicionados? Aos dirigentes máximos poupemos os ardilosos organigramas. Como são hábeis os relatórios das empresas estatizadas Prosperamente deficitários ou por causa das secas ou porque veio no jornal que choveu a mais ou por causa do sol ou porque falta no tractor um parafuso ou talvez porque a polícia de trânsito não multou Vasco da Gama infringindo os códigos na rota das especiarias de Calicute. E os nossos tímpanos os circunjacentes murmúrios? Não é boa ideologia detectar na génese os indesmentíveis boatos? Uma população que não fala não é um risco? Aonde se oculta o diapasão da sua voz E quanto ao mutismo dos fazedores de versos? Não sai poesia será que saem nos verões crepusculares dos bairros de caniço augúrios cor-de-rosa? Quem é o mais super na meteorologia das infaustas notícias? Quem escuta o sinal dos ventos ante da ventania e avisa? II Na berma das avenidas asfaltadas de lixo olhemos perplexos os sarcásticos prédios por nós escaqueirados. Não dói? Nas escolas é maningue melhor partirmos as carteiras e estudar no chão? E nas fábricas que mãos são estas nossas proletárias mãos que só desfabricam? Mas nesta colmeia muita atenção ao mel das abelhas aduladoras. E o que é que se passa com o engordecido responsável sempre a mandar-se em missão de serviço nos melhores hotéis das Europas? Ou no espólio no saco cheio vale mais a carência nacional do que ter sido um pide vale ou não vale nosso esperto milícia Fakir? III Que os camionistas heróis dos camiões emboscados a tiro nas viagens tragam as saborosas tanjarinas d'Inhambane ao custo das ciladas mas descarreguem primeiro nos hospitais nas creches e nas escolas que o futuro do País também está na doce doçura das tanjarinas d'Inhambane e o poder sobrevive na força de um povo com tabelas de amor e não de preços. Mas os auspiciosos cajus purpurinos já não nos dão tincarôsse porgi Especular a pátria não é guiar a viatura nova contra os muros e os postes? Ilegalidade só é ilegalidade nos outros? Quizumba só é quizumba no mato? Então juro que tanjarina d' Inhambane é tanjarina de Moçambique. Eu adoro trincar voluptuosamente os sumarentos gomos da tanjarina d'Inhambane. E desde leste a oeste quem não gosta das saborosas tanjarinas d'Inhambane? Então os que abjuram os sagrados frutos da terra façam lá mulher e filhos. Façam lá um pai e uma mãe. Façam lá tios e sobrinhos. Façam lá uma família. Façam lá irmãos e irmãs. Façam lá amigos e amigas. Façam lá colegas e camaradas. Façam lá com a incompreensão ternura amor e paz se são capazes! IV As orientações de alguns directores desorientam os juízes... (de'es também) Mas quem disse que não tenho pena dos conjuntos safaris embrulhando-os fresquinhos e sem problemas de suores originários deste instável clima tropical? Quem disse que não lamento vê-los penosamente dos "Ladas" com suas poses as incalejadas mãos deles sem aguentarem sequer abrir-se a porta e assentados esperem que seja o motorista irrevogavelmente dê a volta ao mundo do fatalismo e cumpra ainda hereditariamente essa tarefa? Quem é que disse que não tenho pena? Quem disse que não sinto este drama? V Depressa você Madalena vai bichar lenha deixa bicha de carapau. Vóvó fica bichar na comprativa amanhã tem arroz. Titia sai na bicha de capulana vai bichar pão. Toninho com Quiristina vai bichar água. Sexta-feira antepassada mamana Júlia dormiu lá mesmo. Bichou toda a noite no Jone Uarre mas chegou vez... nada! Aontem tomar chá não tomou... foi no serviço. Aoje não toma vai tomar amanhã. Não toma amanhã toma a outro dia. Ou quando encontra toma de noite. E quando não toma de noite então dorme. Mas quando sonhar amendoim já tomou chá e já comeu. VI A gente faz favor quer cascar com unha de dedo grande as tanjarinas d'Inhambane. Olha lá! Você estás cansada da tua terra? Salta arame... vaiaaaiii... Você não gosta bandeira? Leva documento... famba!!! Antigamente 'panhava mais fome mas não ficava aqui? Antigamente era palmatoada. Não estava? Não ia na estiva? Antigamente sapato não era corrente de ferro? Agora só quer "Adidas" não é? Antigamente sentava no xibalo. Agora senta no Scala não senta? Mas quem deu? Antigamente escrevia nome? Aonde? Capaz? Agora manda carta no jornal p'ra dizer que pão não presta. Antigamente encontrava passaporte? Agora não 'panha passaporte fica triste. Fica muito zangado. Faz barulho. Antigamente não era só caderneta? Sim, agora come carapau. Não é peixe? Batata doce e mandioca não é comida? Nossa barriga alembra bife com batata frita e azantona. Alembra bacalhau mais grelos e aquele azeite d'oliveira com vinho tinto de garrafão lacrado. Mas nós tinha isso quando queria ou quando restava? era nossa casa? Qual casa? Lá naquela casa a gente puxava otoclismo p'ra nosso cu p'ro cu dos outros? Vá! Fala lá! A gente não ficava de cócoras na sentina. A gente tinha mais o quê? VII É verdade chuva na machamba não chove. Mas a gente espera. Chuva vai vir. É verdade a gente come couve com couve carapau com carapau farinha com farinha Mas senta na nossa mesa. Toda a família senta em casa no prédio. Amigo também senta Ir embora não voltar mais? Não pode. Deixar aqui. Ir aonde? Capaz! Mudar moçambicano ficar o quê? Mudar a cara ficar qual cara? Fugir há outro que vai fugir. Moçambicano próprio não foge. Quando homem é homem é só um coração. Não é dois. VIII Mesmo quando não tem senha de gasolina não faz mal. Não há crise. Candonga tem. Mas quem disse que aquelas saborosas tanjarinas d'Inhambane não vem mais? É preciso, nós vamos fazer estratégia de mestre Lénine e vamos avançar duas dialécticas cambalhotas atrás moçambicanissimamente objectivas concretissimamente bem moçambicanas. IX Agora alerta camarada Control. Vem aí o camião com tanjarinas d'Inhambane. Tira o dedo do gatilho e faz um aceno d'alegria aos estoico motorista. Ganha metical mas desde Inhambane, desde Chai-Chai, desde Manhiça ele está a guiar mas ele só sabe que chegou quando está a chegar. Camarada Control: Aldeia é aldeia não é vila. Camarada Control: Vila é vila não é cidade. Camarada Control: Cidade é cidade não é distrito. Camarada Control: Distrito é distrito não é província. Camarada Control: Província é província não é nação. Camarada Control: Control é Control não é Governo. Camarada Control: nosso território nacional é desde o primeiro grão d'areia em Cabo Delgado até ao último milímetro na Ponta D'Ouro. X Camarada Control: Abre o teu mais fraterno sorriso no meio da estrada e deixa passar de dentro para dentro de Moçambique nossas preciosas tanjarinas d'Inhambane. Agora casca uma tanjarina e prova um gomo mais outro gomo. É doce ou não é doce Camarada Control? Pronto! Muito obrigado Camarada Control! E viva as saborosas tanjarinas d'Inhambane!!! VIVA!!! José Craveirinha (1982-1984)

23 de setembro de 2008

Natal (José Craveirinha)

NATAL A cidade acordou em festa. Natal! Natal! A Baixa encheu-se de gente. Nas lojas os brinquedos atraíam os pais com as crianças pela mão. Maguébe o negrinho, sobraçando seu monte de aspargos, parou em frente de uma montra. Os olhos abriram-se gulosamente perante as maravilhas tão perto e tão longe dele, que aquilo tudo era um sonho boiando nas pupilas redondas e cheias de todas as fomes de África. Triciclos, motos, camiões, aviões e tantas coisas mais, feitiçaria misteriosa para Maguébe, estavam ali atrás do muro de vidro. Maguébe seguiu depois, rua fora, com seu grande ramo verde debaixo do braço e no pensamento: «a shitututo, a mimova, a shitimela... oh... inkuasu psa Quissimuce ya valungu!» Um búzio grande soprava na alma de Maguébe as ânsias de um menino sem um balão sequer na mão escura, um reles balão encarnado para ele assoprar, o balão inchado como um sapo enorme. Os machimbombos passavam pejados de gente com pressa. Nas lojas há um entra-e-sai initnerrupto como formigueiro. Maguébe cruza a rua, um carro buzina e passa, rápido, um olhar zangado do motorista da cabeça aos pés. No bazar as pessoas iam e vinham, de banca em banca, numa lufa-lufa de batatas, legumes e frutas do Transval e também outras coisas que Maguébe nunca tinha comido e cujos nomes não sabia. Maguébe passou no bazar, vendo, ouvindo e cheirando. Mas o maior milagre de Culucumba era a falta de espaço para a cobiça na alma do pequeno vendedor de ramos de aspargos. Ele não sofria e nunca provara aquelas coisas bonitas que brilhavam do outro lado do vidro das montras. A filosofia de Maguébe nascia e vivia de não saber. Talvez fossem coisas boas, mais gostosas que o sumo de caju; a tincarosse; a mapsincha madura, mais coisas que não tinha perdido porque nunca as tivera. Talvez mesmo fossem melhores que mavunga!... Maguébe, agora que estava morando na cidade, sentia vontade de provar as coisas dos mulungo. Quando ele descia as ruas gritando: - Aspargo minha sinhôr!!!, havia senhoras que tinham pena dele e davam comida, às vezes bolos que ficavam do dia de anos do menino. Maguébe ficava contente e comia até lamber os dedos. Maguébe ficava sentado debaixo de uma sombra de cajueiro, descobrindo o gosto dos bolos até ao lamber dos dedos. Hoje, véspera de Natal, Maguébe sai caminhando rua acima, buscando as moradias, a boca gritando: - Aspargo minha sinhôr... - e os grandes olhos amarrados ainda às paredes de vidro das casas grandes de chilunguine. - Aspargo minha sinhôr!!! Mas a voz hoje perde-se no burburinho da cidade e no barulho dos motores dos automóveis que são os donos das estradas negras de alcatrão: - Dá bocadinho de pão minha sinhôr... Espreita nos portões, grita através das grades mas o apelo morre na lufa-lufa dos preparativos do Natal. Maguébe olha, ajeita o ramo de aspargos no braço nu e lá vai estrada em estrada com o Natal nos olhos, nos ouvidos e no nariz achatado e a luzir em vão no ar embuzinado e festivo: - As... par... go... minha sinhôr... Já longe o pregão de Maguábe ainda corta a atmosfera festiva da cidade, paira no ar como um balão suspenso: - As... par... go... minha sinhôr... E nas veias do menino que veio do fundo da Munhuana com seu ramo de aspargos, um batuque estranho bate e repercute pelo corpo todo como se mil demónios dançassem chibugo dentro da sua barriga: Qui... ssi... mu... ce! Qui... ssi... mu... ce! José Craveirinha

Kamina Gente (A Minha Gente)

KAMINA GENTE (A Minha Gente) Acácias floridas Pelas avenidas Cheiro a manga E a caril no bazar As muitas idas e vindas De mofanas e tombazanas A bailar, marrabentas E batuques. O caju na panela a torra Sob os risos das mamanas Ameijoé aos gritos Peixe seco na venda So o calor do sol A queimar E sentados sobre as esteiras Enrolando um naco de suruma Cocuanas perdem-se no tempo

22 de setembro de 2008

Reza, Maria (José Craveirinha)

REZA, MARIA (1ª versão) Suam no trabalho as curvadas bestas e não são bestas são homens, Maria! Corre-se a pontapés os cães na fome dos ossos e não são cães são seres humanos, Maria! Feras matam velhos, mulheres e crianças e não são feras, são homens e os velhos, as mulheres e as crianças são os nossos pais nossas irmãs e nossos filhos, Maria! Crias morrem à míngua de pão vermes na rua estendem a mão à caridade e nem crias nem vermes são mas aleijados meninos sem casa, Maria! Do ódio e da guerra dos homens das mães e das filhas violadas das crianças mortas de anemia e de todos os que apodrecem nos calabouços cresce no mundo o girassol da esperança. Ah! Maria põe as mãos e reza. Pelos homens todos e negros de toda a parte põe as mãos e reza, Maria! José Craveirinha

Quero ser tambor (José Craveirinha)

QUERO SER TAMBOR Tambor está velho de gritar Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor corpo e alma só tambor só tambor gritando na noite quente dos trópicos. Nem flor nascida no mato do desespero Nem rio correndo para o mar do desespero Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero. Nem nada! Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra. Eu Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra Só tambor perdido na escuridão da noite perdida. Oh velho Deus dos homens eu quero ser tambor e nem rio e nem flor e nem zagaia por enquanto e nem mesmo poesia. Só tambor ecoando como a canção e força e da vida Só tambor noite e dia dia e noite só tambor até à consumação da grande festa do batuque! Oh velho Deus dos homens deixa-me ser tambor só tambor! José Craveirinha

20 de setembro de 2008

Naturalidade (Rui Knopfly)

NATURALIDADE Europeu, me dizem. Eivam-me de literatura e doutrina européias e europeu me chamam. Não sei o que escrevo tem raiz a raiz de algum pensamento europeu. É provável... Não. É certo, mas africano sou. Pulsa-me o coração ao ritmo dolente desta luz e deste quebranto. Trago no sangue uma amplidão de coordenadas geográficas e mar Índico. Rosas não me dizem nada, caso-me mais à agrura das micaias e ao silêncio longo e roxo das tardes com gritos de aves estranhas. Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. Mas dentro de mim há savanas de aridez e planuras sem fim com longos rios langues e sinuosos, uma fita de fumo vertical, um negro e uma viola estalando. Rui Knopfly

Povo e Cultura de Moçambique

POVO E CULTURA DE MOÇAMBIQUE
Moçambique sempre se afirmou como pólo cultural com intervenções marcantes, de nível internacional, no campo da arquitectura, pintura, música, literatura e poesia. Nomes como Malangatana, Chichorro, Mia Couto e José Craveirinha entre outros, já há muito ultrapassaram as fronteiras nacionais. Moçambique possui uma rica tradição cultural de arte, cozinha, música e dança. Importante também e representativo do espírito artístico e criativo do povo moçambicano é o artesanato que se manifesta em várias áreas, destacando-se as esculturas dos Macondes do Norte de Moçambique. Também na área do desporto se tem destacado em várias modalidades, como a Lurdes Mutola no atletismo. Isto reflecte a diversidade da história e valores familiares moçambicanos que em conjunto criam as identidades do Moçambique moderno. Moçambique possui uma longa tradição de coexistência de diferentes raças, grupos étnicos e religiosos. Ao contrário de muitos outros lugares no mundo, a diversidade cultural e religiosa (cristianismo, islamismo e cultos tradicionais), raramente tem sido uma razão para conflitos em Moçambique. Etnias Moçambique é um mosaico cultural constituído por várias etnias, destacando-se as seguintes a norte do Zambeze: os Suahílis, os Macuas-Lomués, os Macuas e os Ajauas; e a sul do Zambeze: os Chonas, os Angonis, os Tsongas, os Chopes e os Bitongas. Línguas A diversidade linguística de Moçambique é uma das suas principais características culturais. Para a maioria da população (principalmente no campo), estes idiomas nacionais constituem a sua língua materna e a mais utilizada diariamente. As diversas línguas nacionais, são todas de origem bantu, sendo as principais: cicopi, cinyanja, cinyungwe, cisena, cisenga, cishona, ciyao, echuwabo, ekoti, elomwe, gitonga, maconde (ou shimakonde), kimwani, macua (ou emakhuwa), memane, suaíli (ou kiswahili), suazi (ou swazi), xichangana, xironga, xitswa e zulu. Devido à considerável comunidade asiática radicada em Moçambique, são também falados o urdu e o gujarati. Com o objectivo de criar uma identidade nacional, o Português foi adoptado como língua oficial depois da independência.

16 de setembro de 2008

História de Moçambique: A Luta pela Independência

A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA A opressão secular e o colonial fascismo português acabaria por obrigar o Povo moçambicano a pegar em armas e lutar pela independência. A luta de libertação Nacional, foi dirigida pela FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). Esta organização, foi fundada em 1962 através da fusão de 3 movimentos constituído no exilo, nomeadamente, a UDENAMO (União Nacional Democrática de Moçambique), MANU(Mozambique African National Union) e a UNAMI (União Nacional de Moçambique Independente). Dirigida por Eduardo Chivambo Mondlane, a FRELIMO iniciou com a luta de libertação Nacional a 25 de Setembro de 1964 no posto administrativo de Chai na província de Cabo Delgado. O primeiro presidente da FRELIMO, Eduardo Mondlane, acabaria por morrer assassinado a 3 de Fevereiro de 1969. A ele sucedeu Samora Moisés Machel que proclamou a independência do País a 25 de junho de 1975. Machel que acabou morrendo num acidente aéreo em M'buzini, vizinha África do Sul acabou sendo sucedido por Joaquim Alberto Chissano, que por sua vez foi substituido pelo actual Presidente Armando Emílio Guebuza. A partir do início dos anos 80, o País viveu um conflito armado dirigido pela RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique). O conflito que ceifou muitas vidas e destruiu muitas infra-estruturas económicas só terminaria em 1992 com a assinatura dos Acordos Gerais de Paz entre a o Governo da FRELIMO e a RENAMO. Em 1994 o País realizou as suas primeiras eleições multipartidárias ganhas pela FRELIMO que voltou a ganhar as segundas e terceira realizadas em 2000 e 2004.

História de Moçambique: Penetração Colonial

HISTÓRIA DE MOÇAMBIQUE: PENETRAÇÃO COLONIAL No final do séc. XV há uma penetração mercantil portuguesa, principalmente pela demanda de ouro destinado à aquisição das especiarias asiáticas. Inicialmente, os Portugueses fixaram-se no litoral onde construíram as fortalezas de Sofala (1505), Ilha de Moçambique(1507). Só mais tarde através de processos de conquistas militares apoiadas pelas actividades missionárias e de comerciantes, penetraram para o interior onde estabelecerem algumas feitorias como a de Sena (1530), Quelimane (1544). O propósito, já não era o simples controlo do escoamento do ouro, mas sim de dominar o acesso às zonas produtoras do ouro. Esta fase da penetração mercantil é designada de fase de ouro. As outras duas últimas por fase de marfim e de escravos na medida em que os produtos mais procurados pelo mercantilismo eram exactamente o marfim e os escravos respectivamente. O escoamento destes produtos acabou sendo efectivado através do sistema de Prazos do vale do Zambeze que teriam constituído a primeira forma de colonização portuguesa em Moçambique. Os prazos eram uma espécie de feudos de mercadores portugueses que tinham ocupado uma porção de terra doada, comprada ou conquistada. A abolição do sistema prazeiro pelos decretos régios de 1832 e 1854 criou condições para a emergência dos Estados militares do vale do Zambeze que se dedicaram fundamental ao tráfego de escravos, mesmo após a abolição oficial da escravatura em 1836 e mais tarde em 1842. No contexto moçambicano as populações macúa-lómué foram as mais sacrificadas pela escravatura. Muitos deles foram exportadas para as ilhas Mascarenhas, Madagáscar, Zanzibar, Golfo Pérsico, Brasil e Cuba. Até cerca de 1850, Cuba constituía o principal mercado de escravos Zambezianos. Com o advento da conferência de Berlim (1884/1885), Portugal foi forçado a realizar a ocupação efectiva do território moçambicano. Dada a incapacidade militar e financeira portuguesa, a alternativa encontrada foi o arrendamento da soberania e poderes de várias extensões territoriais a companhias majestáticas e arrendatárias. Companhia de Moçambique e a Companhia do Niassa são os exemplos típicos das companhias majestáticas. Companhia da Zambézia, Boror, Luabo, sociedade do Madal, Empresa agrícola do Lugela e a Sena Sugar Estates perfazem o exemplo des de companhias arrendatárias. O sistema de companhias foi usado no Norte do rio Save. E, estas dedicaram-se principalmente a uma economia de plantações e um pouco do tráfego de mão de obra para alguns Países vizinhos. O Sul do Rio Save (províncias de Inhambane, Gaza e Maputo) ficaram sob administração directa do Estado colonial. Nesta região do País foi desenvolvida basicamente uma economia de serviços assente na exportação da mão de obra para as minas sul-africanas e no transporte ferro-portuário via Porto de Maputo. Estada divisão económica regional explica a razão da actual simetria de desenvolvimento entre o Norte e o Sul do País. A ocupação colonial não foi pacífica. Os moçambicanos impuseram sempre lutas de resistência com destaque para as resistências chefiadas por Mawewe, Muzila, Ngungunhane, Komala, Kuphula, Marave, Molid-Volay e Mataca. Na prática a chamada pacificação de Moçambique pelos portugueses só se deu no já no séc. XX.

15 de setembro de 2008

História de Moçambique: Período Pré-Colonial

HISTÓRIA DE MOÇAMBIQUE: PERÍODO PRÉ-COLONIAL Os povos primitivos de Moçambique foram os Bosquímanes. Entre os anos 200 a 300 DC, ocorreram as grandes migrações de povos Bantu, oriundos da região dos Grandes Lagos a Norte que empurraram os povos locais para regiões mais pobres a Sul. Nos finais do séc.VI, surgiram nas zonas costeiras os primeiros entrepostos comerciais patrocinados pelos Suahil-árabes que procuravam essencialmente a troca de artigos vários pelo ouro, ferro, cobre e marfim vindos do interior.

Províncias de Moçambique

PROVÍNCIAS DE MOÇAMBIQUE Moçambique está dividido em dez províncias. As províncias são administradas por governadores nomeados pelo Presidente da República. As dez províncias de Moçambique são, por ordem alfabética: 1 - Cabo Delgado 2 - Gaza 3 - Inhambane 4 - Manica 5 - Maputo 6 - Nampula 7 - Niassa 8 - Sofala 9 - Tete 10- Zambézia Até ao momento, foram criados 33 municípios em Moçambique. Moçambique está também dividido em 128 distritos.

13 de setembro de 2008

Moeda Nacional de Moçambique

MOEDA NACIONAL DE MOÇAMBIQUE A moeda nacional é o Metical. A alteração da moeda é estabelecida por lei, aprovada nos termos do Nº 1 do Artigo 295.